Em uma rua estreita do centro histórico de Madri, a poucos passos da Plaza Mayor, funciona há mais de três séculos um restaurante que atravessou guerras, mudanças políticas e transformações culturais sem jamais fechar as portas. Fundado em 1725, o Sobrino de Botín é reconhecido pelo Guinness World Records como o restaurante mais antigo do mundo em funcionamento contínuo.
A longevidade do endereço impressiona por si só, mas não explica completamente sua importância. Ao longo dos séculos, o local deixou de ser apenas uma casa de refeições para se tornar parte da própria narrativa histórica de Madri, acompanhando a evolução da cidade desde o período dos Bourbons até a Espanha contemporânea.
Entre paredes de pedra, fornos a lenha e salões distribuídos em diferentes andares, o restaurante preserva um ambiente que parece resistir ao tempo. Mais do que tradição, o que se encontra ali é uma espécie de linha direta que conecta o presente a uma Europa de outra época.
O segredo por trás do restaurante mais antigo do mundo
Paulo Basso Jr.
O forno que nunca se apaga do Sobrino de Botín
O segredo do Sobrino de Botín para permanecer aberto a tanto tempo, reza a lenda, é o forno a lenha mantido aceso desde o século 18. Se é verdade ou não, é difícil comprovar, mas os relatos históricos e, principalmente, a tradição da casa reforçam essa tese com louvor.
O detalhe, que para muitos não passa de estratégia de marketing, reflete uma prática comum em cozinhas antigas, onde manter o fogo constante facilitava o preparo dos alimentos e garantia funcionamento contínuo. No caso de restaurante mais antigo do mundo, eles apenas mantiveram a prática mesmo diantes das comodidades do mundo moderno.
É justamente no “forno que nunca se apagou” que são preparados os pratos mais emblemáticos doa casa, como o cochinillo asado (leitão assado) e o cordero asado (cordeiro), receitas tradicionais da culinária castelhana. O método de preparo, baseado em calor constante e lento, permanece praticamente inalterado há séculos.
Origens, regras e curiosidades históricas
Paulo Basso Jr.
O famoso cochinillo asado do Sobrino de Botín
O restaurante mais antigo do mundo foi fundado pelo francês Jean Botín e sua esposa, em uma época em que Madri consolidava sua posição como capital da Espanha. Inicialmente, o local funcionava mais como uma hospedaria com serviço de alimentação do que como um restaurante nos moldes atuais.
Naquele período, uma regra curiosa moldava o funcionamento da casa: cozinheiros não podiam preparar alimentos que não fossem trazidos pelos próprios clientes. Essa norma existia para evitar conflitos com as guildas locais, que controlavam rigidamente a produção e venda de comida.
Com o passar do tempo, o estabelecimento foi se adaptando até assumir o formato de restaurante tradicional. Após a morte do fundador Jean Botín e de sua esposa, o comando do negócio passou para um sobrinho da família, responsável por dar continuidade à casa ainda no século 18. É justamente dessa transição que surgiu o nome Sobrino de Botín (Sobrinho de Botín).
A gestão familiar, no entanto, não se limitou a essa primeira sucessão. Ao longo dos séculos, a casa passou por diferentes gerações e também por mudanças de propriedade dentro de um mesmo círculo próximo. No início do século 20, o comando foi assumido pela família González, que permanece à frente do negócio até hoje.
Essa continuidade ajuda a explicar como o restaurante conseguiu atravessar períodos críticos da história espanhola sem encerrar as atividades. Durante a Guerra Civil Espanhola, por exemplo, o funcionamento foi mantido, ainda que com limitações impostas pela escassez de alimentos e pelas condições da época.
Goya, Hemingway e a presença na cultura
Ao longo da história, o Sobrino de Botín acumulou relatos curiosos envolvendo personagens históricos. Um dos mais conhecidos diz respeito ao pintor espanholFrancisco de Goya, que teria trabalhado no local ainda jovem, antes de se tornar um dos maiores nomes da arte europeia. Não há documentação definitiva sobre o episódio, mas a história é frequentemente citada em relatos históricos e materiais da própria casa.
Já no século 20, o restaurante ganhou projeção internacional ao aparecer em obras deErnest Hemingway. No romance “The Sun Also Rises” (1926), o autor menciona o local, ajudando a consolidar sua fama entre viajantes estrangeiros. Hemingway, aliás, costumava frequentar a casa quando estava em Madri e chegou a descrevê-la como um dos melhores lugares do mundo para comer.
Por dentro do Sobrino de Botín
Paulo Basso Jr.
Um dos salões acanhados do Sobrino de Botín
Localizado no centro histórico de Madri, o Sobrino de Botín fica a poucos minutos a pé de pontos turísticos como a Plaza Mayor e o Mercado de San Miguel. A região é bem servida por transporte público, com estações de metrô nas proximidades.
Por causa da fama, o restaurante costuma ter alta demanda, especialmente em horários de pico e durante a alta temporada turística. Por isso, reservas são altamente recomendadas para quem deseja garantir uma mesa.
O restaurante ocupa um edifício de quatro andares, com salões distribuídos em diferentes níveis, cada um com características próprias. Os espaços são relativamente pequenos, com mesas próximas umas das outras, vigas de madeira aparentes e iluminação suave.
O cardápio mantém foco na culinária tradicional espanhola, com destaque para os assados preparados no forno a lenha. Embora os preços sejam mais elevados do que a média, a experiência de comer no restaurante mais antigo do mundo vale a pena.
O cochinillo asado, estrela da casa, bem bem servido e acompanha batatas. A carne suculenta derrete na boca. Você pode pedir que o assado seja servido inteiro, inclusive com a cabeça do animal, ou servido em pedaços. No segundo caso, pode ser que o garçom te olhe um pouco feio, mas a apresentação acaba sendo bem mais aprazível.