Crédito: Paulo Basso Jr.

Como é ficar no refúgio de Gabriel Medina no Taiti

29 de dezembro de 2017

Por Paulo Basso Jr.

Natural de Maresias, em São Sebastião (SP), Gabriel Medina, campeão mundial de surfe em 2014, tem como um de seus picos preferidos no mundo a praia de Teahupo’o, que fica em um vilarejo verdejante da ilha do Taiti, porta de entrada da Polinésia Francesa. O lugar nem de longe lembra os trechos costeiros mais cênicos do país (como as enseadas de ilhas vizinhas de Moorea e Bora Bora), já que abriga uma faixa de areia escura e sem graça, mas tem o trunfo de ser contemplado com algumas das ondas mais perfeitas do planeta.

Quando estão na área, Medina e seu padrasto e treinador Charles Saldanha costumam se hospedar em uma pensão que pertence à família Parker. Trata-se de um lugar simples, com quartos pequenos, paredes brancas, grandes portas de vidro com cortinas cor-de-rosa, um amplo gramadão e atmosfera pacata, cujo diferencial é o tratamento especial empregado pelos simpáticos proprietários, o casal Didier e Sidonie e a filha Vaea. Cordiais, eles não falam inglês muito bem (a língua por lá é o francês), mas fazem os hóspedes se sentirem em casa, como numa família, e não escondem a paixão por Medina.

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“Ele é meu campeão. Adoro quando me chama de mommy”, derrete-se Sidonie. “É o melhor que já vi. Mas o que o faz surfar tão bem aqui em Teahupo’o é certamente o tempero do peixe que eu sirvo para ele”, brinca Didier, que vê Medina como superior até que o norte-americano Kelly Slater, maior campeão da história da modalidade. “Não dá nem para comparar”, crava entre um e outro grito entusiasmado de “Go, Medina” (vai, Medina) e poses com uma prancha assinada pelo brasileiro.

Paulo Basso Jr.
Didier Parker com prancha assinada por Gabriel Medina. “Ele é o melhor”

Didier e Sidonie também falam com simpatia de outros atletas profissionais do Brasil que costumam ficar na pensão durante as competições, como Bruno Santos, Miguel Pupo, Ítalo Ferreira e Jadson André. E o melhor de tudo é que qualquer um pode entrar no clima da Brazilian Storm (nova geração de surfistas brasileiros) e se hospedar na pousada dos Parker ao longo do ano. A diária sai a 100 euros e inclui pensão completa (ou então 75 euros com meia-pensão), valor que se revela vantajoso diante dos altos preços de hospedagem comumente praticados na Polinésia Francesa – as melhores pousadas giram em torno de 200 euros e os hotéis com bangalôs overwater passam dos 600 euros.

O mesmo vale em relação à alimentação, pois Teahupo’o fica longe de grandes mercados – eles se concentram no centro de Papeete, a capital da Polinésia Francesa, a cerca de uma hora de carro do pico de surfe. Ainda mais se for colocado na conta o fato de que, na pensão dos Parker, o hóspede desfruta de ótimos peixes frescos, em geral mahi mahi, marlim e atum pescados pelo próprio Didier. Isso sem contar o tal tempero especial!

Paulo Basso Jr.
A pensão dos Parker, refúgio de Medina e outros surfistas profissionais em Teahupo’o

Os segredos de Cho-po

Medina e seus companheiros da Brazilian Storm não escolheram à toa a pensão dos Parker como residência oficial no Taiti. O local fica em um ponto privilegiado de Teahupo’o, bem em frente ao point em que as melhores ondas quebram, e Didier empresta seu barco (é preciso apenas pagar o combustível) como suporte para quem deseja atravessar o recife e ter um local para guardar prancha reserva e alimentos.

Ocorre que as ondas em Teahupo’o, conhecida carinhosamente como Cho-po (uma corruptela do nome), não se formam próximas à praia, mas após uma passagem entre o anel formado por recifes em torno da ilha e que dá acesso ao mar aberto. O local é recomendado apenas para quem realmente manja do esporte, já que ali os corais ficam no rasinho, logo após a arrebentação, e é muito comum ralar costas e pernas, muitas vezes de maneira grave.

Paulo Basso Jr.
Entrada da praia da vila de Teahupo’o, no Taiti

Há quem acredite, inclusive, que o alcunha de Altar dos Crânios atribuída a Teahupo’o venha daí, mas o fato é que ela surgiu após uma batalha tribal ser travada na região, quando os vencidos tiveram suas cabeças penduradas por estacas na praia. Isso, porém, ocorreu há muitos anos e o clima agora por lá é totalmente pacífico, cheio de boas vibrações, como atesta o advogado Sandro Araújo, que encarou as ondas de Cho-po numa boa (veja o vídeo abaixo). “Esse lugar é um sonho. Já surfei na Austrália e na Indonésia, mas aqui é alucinante”.

O melhor período para surfar em Teahupo’o é entre o meio de abril e o meio de outubro, com destaque para os meses de maio e junho, quando as ondas para a esquerda alcançam 2,5 metros de altura e formam tubos perfeitos. Por uma questão de calendário, entretanto, a etapa do mundial de surfe só rola por lá em agosto.

“Essa é a época em que as pensões lotam e todos os locais vêm torcer pelo Medina. As meninas, principalmente, ficam histéricas quando ele passa”, conta Cindy Drollet, que tem uma agência que promove passeios turísticos pela ilha, a Teahupoo Tahiti Surfari. “Mas ele é superconcentrado, um profissional e tanto e muito querido pelos habitantes da vila, inclusive as crianças carentes, a quem costuma dar presentes”, destaca.

Divulgação-ASP
Gabriel Medina em ação nas ondas de Teahupo’o

Quem também ressalta as qualidades do brasileiro é Chris O’Callaghan, ex-surfista profissional e atual diretor da etapa local do campeonato mundial da modalidade. “Ele é muito bom e tende a melhorar cada vez mais. Acredito que pode cravar seu nome entre os melhores da história”, afirma, levantando também a bola de Cho-po. “Pode anotar: esse lugar ainda vai ser tão famoso e desejado quanto Pipeline, no Havaí”.

Pelo visto, O’Callaghan pode ficar tranquilo. Para os fãs de Medina, que se sagrou campeão no Taiti em 2014 e conquistou o vice em 2017, Teahupo’o já é um sonho.

Dicas para economizar em Teahupo’o

– O Taiti é uma das 118 ilhas da Polinésia Francesa, no Pacífico Sul. É lá que fica a capital do país, Papeete, onde chegam os voos internacionais. Para quem sai do Brasil, há a opção de viajar de Latam, fazendo escala em Santiago e Ilha de Páscoa (Chile). Os voos têm frequência semanal. Uma possibilidade com voos diários é seguir para Los Angeles (EUA) e de lá voar para o Taiti em companhias como Air France e Air Tahiti Nui. O esquema é pesquisar as paisagens com antecedência. Com sorte, é possível encontrá-las a partir de R$ 4,3 mil.

– Para reservar um quarto na pousada dos Parker, em Teahupo’o, é preciso entrar em contato com a filha do casal, Vaea Parker, pelo Facebook.  Outra opção de hospedagem interessante no Taiti para quem curte surfe, embora um pouco mais cara, é a pensão Chayan, refúgio do atual campeão mundial da modalidade, o norte-americano John John Florence.

Paulo Basso Jr.
Gramadão em frente à pensão dos Parker, em Teahupo’o

– Vale a pena alugar um carro próximo ao aeroporto de Papeete e dirigir pelas estradas cercadas de verde até Teahupo’o. O valor do automóvel parte de US$ 80 dólares por três dias, o que é vantajoso diante dos US$ 92 do shuttle cobrado entre o aeroporto e o vilarejo do Taiti.

– Caso não queira comer todos os dias na pensão, vá a restaurantes como o Snack Tavania, muito frequentado por locais, inclusive surfistas. Os peixes por lá são frescos, bem servidos e custam entre 15 e 20 euros.

Paulo Basso Jr.
Barco em que os Drollet levam surfistas e viajantes para passeios na ilha do Taiti

– O pai de Cindy, Bjarn Drollet, foi um dos pioneiros no Taiti a montar uma estrutura para fotógrafos trabalharem nas ondas de Cho-po. O mesmo barco no qual ele leva os profissionais há anos para a área da competição é oferecido a surfistas por US$ 20 dólares ao longo do ano, com acompanhamento pelo período de até duas horas. A Teahupoo Tahiti Surfari, agência da família, promove a partir de US$ 80 uma série de passeios na ilha, com foco ou não em surfe. Eles levam para cavernas, cachoeiras, jardins de corais e diversos pontos onde é possível curtir o visual repleto de verde contrastado pelas águas azuis e cristalinas que envolvem o Taiti.