Lisboa: a nova cena da capital portuguesa

26 de dezembro de 2017

Por Paulo Basso Jr.

Tio Sam aponta o dedo para Che Guevara, que posa ao lado da Marilyn Monroe de Andy Warhol espremida em meio a uma série de rabiscos coloridos, cartazes de bandas punk, desenhos e mensagens de paz. O banheiro underground da LX Factory, espaço cultural repleto de lojas e restaurantes transados, erguido onde antes funcionava um antigo armazém e uma fábrica, está lá para escancarar o que muita gente já descobriu: Lisboa, definitivamente, deixou a poeira das casas de fado para trás e está com uma nova cena, jovem e pulsante, que cada vez mais atrai e conquista viajantes.

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Tudo bem que a Torre (e os pastéis) de Belém, o Mosteiro dos Jerónimos, o Castelo de São Jorge e tantas outras maravilhas antigas estão lá e sempre valem um alô, mas faz bem quem expande os horizontes na hora de bater perna pela capital portuguesa em busca de novos ares. Mesmo porque Lisboa deixou de ser apenas um local de passagem rápida dos brasileiros rumo a outros pontos da Europa e se transformou em um destino querido e almejado, que merece mais dias de visita.

Quem viaja de TAP, por exemplo, tem direito a cinco dias de stopover gratuito nos voos com conexão na capital portuguesa. Isso é tempo suficiente para aproveitar muito bem o que Lisboa tem a oferecer além dos cartões-postais mais tradicionais. Boas sugestões não faltam.

LX Factory e Docas de Santo Amaro

Quem volta os olhos para a Ponte 25 de abril, cujo desenho e a cor avermelhada fazem lembrar a Golden Gate, de San Francisco (EUA), mal pode imaginar que abaixo dela, no ponto em que parte de Lisboa rumo à cidade de Almada, do outro lado do Rio Tejo, está o que muitos chamam de “a ilha criativa de Lisboa“. Trata-se da LX Factory, local em que é possível comprar roupas, enfeites, utensílios domésticos, livros, joias e uma série de outros produtos em estilo moderninho. Também dá para comer sushi, hambúrguer, tacos e, com sorte, até algum doce típico português.

A LX Factory nasceu da ideia de um grupo imobiliário que queria revitalizar um espaço há muitos anos abandonado em Alcântara. A edificação de 1846 passou então por uma grande remodelação em 2008 e, desde então, vem mudando a cara do bairro.

A LX Factory, em Lisboa, é boa para fazer compras, comer ou relaxar tomando um bom café

A dica é fazer um passeio demorado pelas ruas que separam os antigos galpões, entrando em cada lojinha e descobrindo os mais curiosos itens à venda. Os preços nem sempre são convidativos, mas olhares cuidadosos podem descobrir boas pechinchas.

Quando a fome apertar, apesar da boa quantidade de restaurantes que se descortinam no pedaço, vale a pena caminhar em direção ao Tejo até chegar às Docas de Santo Amaro. O trajeto leva cerca de 20 minutos e não é bem sinalizado. É nessa hora que você pode contar com a simpatia do povo português ao dar informações e sair perguntando a qualquer transeunte qual é o melhor caminho para chegar lá. 

Nick Moulds on Visual hunt / CC BY-NC-SA
Há uma série de restaurantes de frente para o Tejo nas Docas de Santo Amaro, em Lisboa

Uma vez nas docas, o ambiente lembra Puerto Madero, em Buenos Aires, ou a Estação das Docas, em Belém (PA). São vários restaurantes de frente para o rio, muitos deles com mesinhas ao ar livre, onde é possível experimentar pratos de diversas partes do mundo. Com destaque, claro, para os portugueses.

Como a concorrência é alta, algumas casas atraem clientes com bebidinhas, como taças de vinho do Porto. E, pode apostar, a degustação dessa maravilha portuguesa fica ainda melhor diante dos raios do sol tingindo as águas do Tejo e se refletindo na estrutura metálica da Ponte 25 de Abril.

A estação mais próxima da LX Factory e das Docas de Santo Amaro é a Alcântara-Mar. O passeio pode ser combinado, na ida ou na volta, com uma visita às atrações do bairro do Belém, como a Torre de Belém, o Mosteiro dos Jerónimos e a Antiga Confeitaria de Belém.

Mercado da Ribeira e Rua Cor-de-Rosa

É tão bom comer em Lisboa que, às vezes, rola briga entre casais, famílias ou grupos de amigos viajantes. Um quer bacalhau, outro leitão à bairrada e há quem só pense nos pastéis de nata e em outros doces derivados de ovos, marca indelével da gastronomia portuguesa.

Mercado da Ribeira, ótimo local para comer em Lisboa

Nesse caso, não há nada melhor do que visitar o Mercado da Ribeira (ou Time Out Market), no Cais do Sodré, que passou por uma grande reforma em 2014 e reabriu com um amplo salão repleto de restaurantes, que servem o melhor da cozinha regional e internacional.

São dezenas de balcões padronizados e uma série de mesas comunitárias ao centro, que dividem espaço com barracas de doce, comidinhas e chopeiras. Há estabelecimentos de chefs famosos, como Alexandre Silva e Miguel Laffan, e de outros cozinheiros que estão iniciando a carreira.

Dá vontade de provar um pouco de tudo, como os croquetes de carne (principalmente quando estão quentinhos) da Croquetaria, o pão com chouriço apimentado ou sardinha da Cozinha da Felicidade, o leitão à bairrada do Leitão da Ribeira e a cerveja artesanal da Beer Experience Super Bock.

Tranquila durante o dia, a Rua Cor-de-Rosa, no Cais do Sodré, bomba à noite

Difícil é sair de lá sem pensar em se jogar na cama, mas caso passe pelo Mercado da Ribeira durante o jantar e esteja afim de esticar a noite (a de Lisboa é uma das mais animadas da Europa, por sinal), saia pelas portas do fundo e explore as ruas do Cais do Sodré.

A principal delas é a Nova do Carvalho, mais conhecida como Rua Cor-de-Rosa, pois tem um trecho do asfalto pintado com essa cor. Ali há casas noturnas e diversos bares descolados, como a Livraria Bar Menina e Moça, um bom lugar para tomar a famosa ginjinha portuguesa.

A estação que dá acesso à região é a Cais do Sodré.

Príncipe Real

A maior parte das pessoas que vai a Lisboa parte da região da Baixa rumo ao Chiado e passa um bom tempo por lá, indo no máximo até o Bairro Alto, onde a noite pulsa na capital portuguesa com diversos bares e restaurantes. Vale a pena, entretanto, subir um pouco mais em direção à Praça Príncipe Real, um dos marcos da nova cena lisboeta.

Paulo Basso Jr.
O lindo pátio da Embaixada, bom lugar para tomar café e almoçar em Lisboa

A região contempla uma série de confeitarias, restaurantes e, principalmente, vitrines. Durante o dia, o destaque é a Embaixada, shopping de luxo que funciona em um antigo palacete mouro. Alfaiatarias e lojas de produtos artesanais se distribuem pelas salas que margeiam um lindo pátio, onde é possível saborear refeições sofisticadas ou relaxar tomando um café ou uma taça de vinho.

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A noite na região da Príncipe Real também é agitada e faz com que viajantes e moradores dividam espaço no Pavilhão Chinês, um bar que mais parece um museu, em cujas paredes há toda sorte de peças de decoração chinesas. Tem quem considere o ambiente um tanto quanto intimidador, mas vale a pena tocar a campainha para acessar o ambiente, entrar no clima e provar um drinque em meio aos pratos de porcelana, penduricalhos, brinquedos, xícaras, antiguidades…

A estação de ônibus Príncipe Real fica nas imediações.

Parque das Nações

Nada reflete mais a nova proposta de Lisboa do que o Parque das Nações, construído durante a Exposição Mundial de 1998. Amplo e verde, o espaço à beira do Tejo tem arena de eventos onde rolam altos shows, bem como teleférico, torres modernas de hotéis, o shopping Vasco da Gama e o Oceanário de Lisboa, aquário erguido em um píer sobre o rio e que abriga um imenso tanque onde vivem diversas espécies aquáticas.

Paulo Basso Jr.
Monumento em frente ao shopping Vasco da Gama, no Parque das Nações, em Lisboa

Muito procurado por quem viaja com crianças pequenas, o Oceanário fica ainda mais bonito à noite, quando a fachada ganha iluminação com tons de azul e amarelo. Vale a pena jantar nos restaurantes do Parque das Nações só para observar o cenário.

A melhor maneira de chegar à região é descer na Estação do Oriente, um conjunto de construções em metal, concreto e vidro, que dá acesso a áreas ajardinadas com direito a fontes e monumentos. Alvo constante de fotos, a estação foi desenhada por Santiago Calatrava, o mesmo arquiteto por trás da Cidade das Artes de Valência e do Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro.

Paulo Basso Jr.
A Estação do Oriente, projetada por Santiago Calatrava em Lisboa

Museus e mais museus

Histórica e cosmopolita, Lisboa ainda viu uma série de museus abrir as portas recentemente. A lista é longa e inclui o Museu Nacional dos Coches, onde estão expostas carruagens que transportaram reis e rainhas de Portugal e outros países da Europa. Tinindo de branco, o espaço minimalista criado na região do Belém pelo arquiteto brasileiro Paulo Mendes da Rocha recebeu o acervo do antigo Picadeiro Real, prédio de 1726,

A arrojada fachada do MAAT, em Lisboa

Pertinho dali, com a estação de Belém no meio do caminho, está o arrojado Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia (MAAT), inaugurado no final de 2016. Imponente, o edifício projetado pelo atelier da britânica Amanda Levete tem paredes inspiradas em cerâmica e na célebre calçada portuguesa.

Se a fachada do MAAT é linda, o interior é mais ainda. É a cara da nova Lisboa, que soube muito bem olhar para o futuro sem abrir mão dos tesouros conquistados ao longo da história.

Veja mais fotos de Lisboa em @rotadeferias.