Crédito: Crédito: Richard Elzey via Visual Hunt / CC BY

Experimentamos a pimenta mais forte do mundo. Ela está no interior de São Paulo 

21 de março de 2017

Por Sérgio Vinícius

Se o Ligeirinho entrar em combustão espontânea, o ideal não seria colocá-lo dentro da boca. Mas foi praticamente isso que fiz há alguns dias.

Era o cair da tarde de um sábado qualquer. À beira de uma piscina, eu olhava para o nada e considerava beber toda a água e todo o cloro dela. Lágrimas escorriam dos meus olhos. O coração ganharia do Usain Bolt em qualquer prova de 100 metros. A garganta estava revolta e dentro da minha boca, aparentemente, eu estava mastigando o Pikachu.

Em minha mente, alguns pensamentos iam e vinham. “Por que, meu Deus? Por quê?”, “Se eu morrer agora, um legista descobre a causa ou terá de apelar para um médium e alguns exorcistas?”, “Sério mesmo que só eu acho a Sandra Bullock a cara do Michael Jackson?”, “Será que leite resolve?”.

– Melhor batata cozida, disse Fábio Tuma, interrompendo a tentativa de raciocínio e sensações físicas que, naquele momento, me pareciam a peste negra. Pena que a gente não tem sempre batata à mão. Aí, nesse caso, vai leite.

“Desnatado ou semi?”, foi o que consegui pensar. Não abri a boca porque tive medo que meus dentes caíssem ou, pior, que de dentro dela saísse um maçarico sequestrando meu pâncreas e pedindo resgate.

Fábio produz, em Monte Alegre do Sul, a cerca de 100 km de São Paulo, a pimenta mais forte do mundo. Carolina Reaper é o nome da fera, como diria Faustão e possivelmente qualquer outra pessoa que já a colocou na boca. O Viciado em Pimentas ainda trabalha com espécies como Trinidad Scorpion Moruga, Bhut Jolokia e VICNIC-1313, na forma de frutos, sementes, mudas, pastas bases puras e linguiças das pimentas mais ardidas do mundo.

– A sensação é de incêndio, esclareceu Fábio. O corpo entende que você está no meio do fogo e age como tal, provocando, por exemplo, suor. Por isso é difícil ficar parado após prová-la.

Isso explica o fato de eu parecer um camundongo de laboratório, dentro daquelas gaiolinhas, correndo de um lado para o outro em completo desespero. “Quem é o Ligeirinho em chamas agora, hein?”.

Minutos antes dessa experiência de quase-morte, conheci o showroom do Fábio. Lá, ele vende uma série grande de produtos e explica peculiaridades das pimentas que produz. É possível ver, e comprar, seus produtos também em sua loja virtual. Boa praça, o Viciado em Pimentas tem prazer em explicar como começou seu interesse em pimentas e falar sobre amenidades, como seu tipo preferido do fruto.

– Meu pai costumava trazer para casa pimentas de diversos lugares ao redor do mundo e guardá-las. Montou o que chamamos de “pimentoteca”. E eu costumava assaltar a coleção, para experimentar. Peguei gosto pela coisa, explicou.

Entre as preferidas, Fábio contou que, das nucleares, aprecia todas. O especialista tem apreço especial pela VICNIC–1313, criada por ele e batizada em homenagem às suas filhas. No meio da conversa, até pensei em contar que eu era grande fã das biquinho (ardência zero) e das jalapeño, mas como não tinha ideia – até ali – do que eram pimentas nucleares, resolvi mudar de assunto. Passamos a conversar sobre Mamma Bruschetta e ditados populares.

– Pássaro vem, come as pimentas da plantação e sai voando. Acabam estragando os frutos. Como eles têm poucas papilas gustativas, não sentem o ardor. Aliás, por isso mesmo eles comem pedras.

Fábio participa eventualmente de programas de TV e, em seu canal no YouTube, mostra suas pimentas na prática. Um dos melhores vídeos é o que está no Mulheres, na TV Gazeta. Mamma Bruschetta faz falta, já que o Fofocalizando é um programa bem chatinho e aquele robô que pica fotos não para em pé.

Pelos vídeos, é possível se divertir. Há pessoas sofrendo, tem o Fábio comendo os frutos, tem a Cátia Fonseca gargalhando e mostrando todo seu potencial sádico. Obviamente, não se compara à visita pessoal à plantação e ao showroom do Viciado em Pimentas – que é possível conhecer gratuitamente. Embora eu tenha chegado sem aviso e de sopetão (e mesmo assim sendo muito bem recebido pelo Fábio), o indicado pelas regras modernas de etiqueta é marcar antes. “Dependendo do dia, consigo até levar na fazenda, que fica a 30 km daqui”, conta Fábio.

Meia hora depois de finalmente me livrar do Pikachu e já na estrada de volta, me deu novamente vontade de experimentar a Carolina Reaper. Aliás, é daí que vem o nome Viciados em Pimentas: quem gosta quer repetir a dose com frequência.

Por sorte, trazia uma geleia de morango e pimenta – que, na redação do Rota de Férias, limpou as vias respiratórias de dois repórteres em coisa de 2 segundos. (A frase “há um mês não respirava tão bem” foi proferida em dado momento por aqui.)

Ah, além da geleia, também aproveitei para adquirir a pimenta em pó, de bolso. Altamente indicada, segundo Fábio, para misturar com doses de cachaça ou de tequila. Quanto à primeira, já consigo concordar com ele. Para a segunda, talvez resolva fazer a experiência no próprio México. Aproveito, dou um abraço (e talvez uma mordida) no Ligeirinho. Além de lançar um olhar de desprezo, in loco, à jalapeño. Filhotinha, coitada.

Serviço
Fazenda Orypaba – Monte Alegre do Sul, SP – Brasil – CEP 13910-000
Comercial (19) 3899-2404 | Vivo (19) 99818-7318 | Tim (19) 98295-9795
Horário de atendimento: Das 08:00 as 18:00 horas.
E-mail: viciadoempimentas@gmail.com