Crédito: Divulgação/Arquivo Pessoal

Conheça o brasileiro que está dando a volta ao mundo de moto

22 de novembro de 2016

Por Maria Beatriz Vaccari

Dar a volta ao mundo é o sonho de muitos viajantes. O brasileiro Tiago Costa decidiu tirar essa meta do papel e conhecer o planeta da forma que mais gosta: pilotando uma motocicleta. A adaptação para começar a expedição, batizada Temet Nosce – World Bike Ride, não foi nada fácil. O viajante de plantão largou o emprego como diretor financeiro e se desfez de vários bens para bancar a aventura. Ele também preparou documentações, reforçou a moto e se preparou fisica e psicologicamente para desbravar as estradas dos cinco continentes. Enquanto estava no Marrocos, na África, Costa reservou um tempinho para conversar com o Rota de Férias. Espia só a entrevista:

Rota de férias: O que é o projeto Temet Nosce – World Bike Ride?

Thiago Costa: Temet Nosce significa “conhece a ti mesmo”, em latim. É uma grande jornada interior que explora diferentes ambientes do planeta. Uma das principais condições para fazer essa jornada é que ela seja dinâmica, então não posso afirmar categoricamente por onde passarei. Já estou na estrada há mais de oito meses, e a viagem seguirá pelo tempo necessário para completar a volta ao mundo da forma que sempre quis. Isso significa explorar culturas, conhecer pessoas e fazer novas amizades. Pode ser que dure um ano e meio ou dois anos. Vamos ver o que as estradas me mostrarão.

RF: O que você fazia antes de começar a expedição?

TC: Trabalhava como diretor financeiro de uma startup de e-commerce. Construí minha carreira no mercado corporativo em empresas de consultoria e bancos antes de ingressar em corporações para assumir responsabilidades sobre as áreas financeiras e administrativas.

RF: O que te motivou a largar tudo e fazer uma volta ao mundo de motocicleta?

TC: Sempre tive vontade de conhecer o mundo inteiro. Viajei muito durante a carreira profissional e pude conhecer lugares incríveis. No meu tempo livre também estive em locais fantásticos, tanto de avião como de moto. Minha alma de motociclista diz que sair de moto é a melhor forma de interagir com o que está ao redor. A sensação de liberdade faz muita diferença.

RF: Por onde você já passou e pretende passar?

TC: Eu até tenho um plano e uma grande rota a trilhar, mas a verdade é que já alterei muitas vezes os caminhos. Já cruzei as Américas do Sul e do Norte, estive em muitos países da Europa, como a Rússia e os banhados pelo litoral do Mediterrâneo, e agora estou em Marrocos, de onde seguirei para África do Sul pela Costa Oeste cruzando 21 países. Depois irei para a Austrália. Até lá, vou precisar me assegurar sobre as condições do Oriente Médio, porque quero chegar no Sudeste Asiático e subir novamente até a Rússia. Se a situação estiver muito problemática, seguirei para o Japão.

Foto: Divulgação/Arquivo Pessoal
dscn4857

Thiago Costa pretende completar sua volta ao mundo dentro dos próximos dois anos

RF: Você já tem algumas estradas favoritas até agora?

TC: Tenho algumas: Canon del Pato, no Peru; um trecho da Ruta Panamericana, no Bosque Nuboso, no Equador; a travessia da Baja California, no México; a Independence Pass, no Colorado, Estados Unidos; a Icefields Parkway, estrada entre os parques nacionais de Banff e Jasper, no Canadá; os passos de montanha da região do Tirol, entre Itália e Áustria; o Paso de Gavia, na Itália; e a norueguesa Atlantic Road.

RF: E qual foi o destino que você mais gostou até agora?

Preciso listar alguns, também. A vida ao ar livre em lugares como Peru, Costa Rica, Estados Unidos e Noruega é fabulosa. As praias da costa do Pacífico no México são incríveis. As grades cidades da Dinamarca, Polônia e Lituânia são impecáveis. A região dos Alpes é fantástica. E tem ainda Portugal, com pessoas incríveis, extremamente receptivas e amistosas.

RF: Você já viveu experiências diferentes e curiosas nos destinos visitados até agora?

TC: Na Baja California dirigi centenas de quilômetros comprando gasolina de barris na beira da estrada. Uma situação inusitada até então. Na Alemanha, na região da Floresta Negra, fui convidado para ficar na casa de um amigo, construída em 1706! Na Noruega é muito difícil ver uma nota de dinheiro, o pessoal só usa cartão. Lá também existem muitos lugares que não têm pessoas, postos de gasolina e contam com supermercados sem atendentes no caixa. Andar pelo interior russo, fechado para o mundo até os anos 1980 e com tantas características únicas, foi muito interessante. Ainda comi carne de rena na Finlândia e bochecha de porco em Portugal.

Foto: Divulgação/Arquivo Pessoal
DSCN4353

Viajante destaca a importância de cuidar da motocicleta para evitar imprevistos

RF: Em quais lugares você costuma passar as noites?

TC: Busco sempre as alternativas mais seguras e baratas, como albergues e acampamentos. De vez em quando é necessário estar em cidades maiores, então tenho que me hospedar em hotéis. Não é possível reservar ou organizar com antecedência, então isso acaba fazendo parte da aventura.

RF: Qual modelo de motocicleta você escolheu para a aventura?

TC: Piloto uma BMW F800GS, que na minha análise é o modelo que oferece as características ideais para uma viagem como essa. Não é tão grande, facilmente manobrável em qualquer terreno, é segura e confiável, motor forte, tem facilidade nos pequenos reparos e capacidade de carga suficiente para o que preciso.

RF: É importante preparar a motocicleta minuciosamente para a viagem. Como você fez isso?

TC: Eu não queria deixar a moto pesada, então só considerei o mínimo de proteção extra. Coloquei dois pares de faróis extras, troquei a bolha (para-brisa) por um modelo maior e protetores de farol, motor e cárter. Também coloquei um bagageiro maior e modifiquei as pedaleiras e alavancas de câmbio e freio.

RF: Quem faz longas viagens de moto precisa ficar atento à manutenção para não ficar na mão. Quais procedimentos você segue?

TC:  Reviso visualmente a moto todos os dias. Reaperto parafusos e porcas e checo tudo o que é possível. Como a moto tem corrente, devo mantê-la lubrificada o tempo todo. Faço isso a cada 500 km no máximo. Troco o óleo do motor e limpo o filtro de ar a cada 5 mil km, além de executar as manutenções especificadas pelo fabricante a cada 10 mil km. Como não consigo seguir à risca, preciso manter a moto em ordem o máximo de tempo possível.

RF: Quais documentos o piloto precisa carregar em uma volta ao mundo?

TC: O Certificado do Registro do Veículo (CRV), a Permissão Internacional de Direção (PID) e o passaporte. Alguns países exigem certificado internacional de vacinação contra febre amarela e poliomielite. Existem nações africanas, asiáticas e da Oceania nas quais é obrigatório o Carnet du Passage, espécie de passaporte para veículos, que infelizmente não é emitido no Brasil.

Foto: Divulgação/Arquivo Pessoal
dscn4747

Costa passa a maioria das noites em albergues e acampamentos

RF: É possível emitir o Carnet du Passage em outros países?

TC: Sim. Eu emiti o meu na Suíça, mas sei que também é possível na Inglaterra. Todo o processo rola pela internet. E os automóveis clube, responsáveis pela emissão, podem encaminhar o documento pelo correio. Eu preferi buscar o meu pessoalmente.

RF: Como funciona o processo de levar a motocicleta para outros continentes?

TC: É trabalhoso e exige pesquisa intensa, uma vez que existem muitas opções. Eu busco em primeiro lugar confiança e credibilidade, somadas ao preço. No geral a burocracia é normal em função de transportar um objeto perigoso, dado que tem combustível, bateria e por aí vai. Portanto, as inspeções de segurança são detalhadas e a burocracia acompanha tudo isso. São muitos formulários e carimbos, mas com paciência e tranquilidade tudo se resolve.

RF: A pessoa que decide fazer uma longa viagem de moto precisa estar psicológica e fisicamente preparada de que forma?

TC: A preparação é fundamental. A parte psicológica é importante, porque é muito desgastante estar sozinho por tantos dias, ter que lidar com diversas situações e resolver problemas de todos os tipos. O capacete fala muito alto fisicamente. Dirigir 12 ou 14 horas sem parar é cansativo. Assim como montar e desmontar a moto diariamente, enfrentar todos os tipos de condições climáticas e, no dia seguinte, levantar e seguir em frente.

RF: Como você prepara a bagagem?

TC: Carrego o mínimo necessário. As malas laterais da moto levam ferramentas e equipamento de camping. Na mala de tanque ficam os meus equipamentos fotográficos e documentos. Deixo minhas roupas, computador e tablet na mala maior. Tenho roupas para enfrentar qualquer condição climática, remédios e baterias para os equipamentos.

RF: De que modo você financia a viagem?

TC: Eu vendi minha casa, meu carro e minha participação na empresa onde trabalhava. Os recursos vêm daí. Não tenho nenhum patrocínio financeiro, mas tenho apoio em produtos e equipamentos para a moto e para mim. As condições do Brasil dificultam muito a oportunidade das empresas patrocinarem esse tipo de projeto.

RF: Existem páginas para quem quiser apoiar e acompanhar o projeto?

TC: A viagem tem uma página no Facebook, além da minha página pessoal. Se alguma empresa se interessar em conhecer melhor o projeto é só entrar em contato por qualquer uma das páginas.

RF: Quais são os seus planos para depois de expedição?

TC: Penso em estabelecer uma empresa de moto turismo para compartilhar as experiências que essa viagem me trouxe. Fazer algo cujo fim mais importante seja trabalhar com coisas que despertam minha alegria da forma mais profunda. Além disso, vou publicar um livro para relatar toda a viagem e atuar como palestrante, somando minha experiência anterior para colaborar com as corporações e seus times.