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Como surgiu a Oktoberfest de Munique, na Alemanha

2 de outubro de 2017

Por Paulo Basso Jr.

O’zapft is! Essa frase em alemão, pronunciada com entusiasmo todos os anos pelo prefeito de Munique, significa “O barril está aberto!” e indica o exato momento em que se reinicia a festa de casamento celebrada há mais tempo no mundo: a Oktoberfest. E por mais que todos a confundam como um evento unicamente dedicado à cerveja – motivos para isso não faltam, a começar pela frase de abertura – a Oktober, como é carinhosamente chamada, ressalta diversos outros costumes típicos da Bavária, região situada a sudeste da Alemanha. Entre eles, destacam-se gastronomia, música, dança, artes cênicas e um banho de história, contada e exaltada por um povo que faz questão de sair às ruas, ainda hoje, com trajes de época.

O evento que inspirou a grande festa de Blumenau (que em 2017 vai de 4 a 22 de outubro) teve início em outubro de 1810, quando o então rei bávaro Luís 1 (Ludwig I) casou-se com Tereza da Saxônia (Therese von Sachsen-Hildburghausen). Para comemorar a boda, foi organizada uma corrida de cavalos, seguida por uma festa pública que durou uma semana. O sucesso do evento fez com que ele viesse a se repetir nos anos seguintes com a participação não apenas do povo da região, mas também de outros Estados da Confederação Germânica.

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É dada a largada da Oktoberfest em Munique, na Alemanha

Aos poucos, a duração da festa começou a ser alongada. Mais que isso, as comemorações foram antecipadas em algumas semanas, a fim de caírem em dias mais quentes no Hemisfério Norte, pois em outubro, na Alemanha, já faz bastante frio. Com isso, a despeito do nome, a Oktoberfest realizada hoje em Munique ocorre quase que totalmente em setembro. A data varia conforme o ano e, para determinar o dia em que começa, é preciso pegar o primeiro domingo de outubro, que tradicionalmente indica o encerramento da festa, e contar 15 dias para trás. Assim, o início sempre ocorre em um sábado.

Este período só é alterado quando o primeiro domingo de outubro cai antes do dia 3. Isso porque, em 3 de outubro de 1990, a Alemanha foi reunificada. Dessa forma, caso o calendário aponte o domingo nos dias 1º ou 2 de outubro, a Oktoberfest é estendida até a segunda ou terça-feira, respectivamente, para unificar as comemorações. Foi o que aconteceu em 2017.

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O pavilhão Schottenhamel, onde é dada a largada da Oktoberfest de Munique

No meio desse imbróglio de datas, o que importa é que, do grito de O’zapft is exclamado pelo prefeito até o final da festa, a capital bávara recebe turistas de todas as partes do mundo para celebrar uma das reuniões populares mais alegres do planeta. E pode colocar turistas nisso. Em 2010, ano em que os festejos completaram 200 anos (embora tenha sido a 177ª edição, já que não houve festejos em períodos de guerra), 6,4 milhões de pessoas passaram pelo festival germânico. Em 2017, com o encerramento da festa em 3 de outubro, a expectativa é que o número passe dos 7 milhões. Depois dos alemães, a maior parte dos visitantes vem de países como Itália, Áustria, Estados Unidos, Inglaterra, República Checa e França.

E a cerveja?
A Oktoberfest começou a agregar o status de maior festa de cerveja do mundo a partir do século 20, mais precisamente em 1918, ano em que o precioso líquido dourado foi liberado para ser servido durante o evento. Como os bávaros (e alemães em geral) são um povo cervejeiro por natureza, não demorou a que a bebida se transformasse na grande atração do festival. Prova disso é que, no sábado que marca o início do evento, antes mesmo de o prefeito estourar o primeiro barril de chope, um desfile de carruagens com representantes de cervejarias é realizado pelas ruas de Munique. Distribuindo sorrisos e, claro, com copos cheios na mão, eles carregam simbolicamente os barris que sorverão o sedento público ao longo dos festejos.

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Um grande desfile realizado pelas ruas de Munique da início a Oktoberfest todos os anos

Em poucos lugares do mundo a cerveja é levada tão a sério quanto na Alemanha. Por isso, apenas seis fabricantes são autorizados a fornecer a bebida durante a Oktoberfest: Paulaner, Hofbräu, Löwenbräu, Spaten, Hacker-Pschorr e Augustiner. A honraria requer que todos os produtores se enquadrem em dois requisitos básicos: eles têm de respeitar a Lei da Pureza da Bavária, um tratado de regulamentação na produção de cerveja assinado em 1516 e que perdura até hoje; e devem concentrar a produção dentro do perímetro urbano de Munique.

Já em março de cada ano, as seis cervejarias oficiais começam a produzir uma série especial da bebida chamada Oktoberfest (ou märzen – de março, em alemão), usando receitas centenárias no cuidadoso preparo da cerveja que será servida na festa. Trata-se de um estilo parecido com o pilsen, o mais apreciado no Brasil, porém mais encorpado e alcoólico.

Não há grande rivalidade entre os fabricantes, tanto que na comemoração dos 200 anos da festa, em 2010, eles se juntaram para produzir uma cerveja especial, cujos sabor e aparência seriam semelhantes ao da bebida oferecida aos nobres no longínquo casamento de Luís I e Tereza da Saxônia, em 1810. Cada uma das seis cervejarias, porém, tem seu pavilhão próprio na Oktoberfest. Eles se juntam a outros 7 para formar as 14 grandes tendas em que o evento se concentra.

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Pavilhão da Hacker-Pschorr, uma das seis cervejarias de Munique participam da Oktoberfest

O pavilhão da Augustiner é o preferido dos alemães, enquanto Hofbräu, Paulaner e Löwenbräu atraem mais estrangeiros, sobretudo jovens. A Hacker-Pschorr abriga tradicionalmente a tenda melhor decorada, e a Spaten caracteriza-se por reunir um público mais idoso e tranquilo.

Os outros pavilhões se voltam a fraternidades e grupos segmentados da sociedade. Há um que atrai chiques e famosos, outro que recebe políticos, o favorito do público GLBT e por aí vai. O mais tradicional é o Schottenhamel, tanto que é nele que o prefeito estoura o primeiro barril de chope e dá início às festividades. De forma geral, todas as tendas são parecidas e mesmo as que não carregam o nome oficial de uma marca servem uma das seis cervejas oficiais do evento.

Parque temático
Com capacidades que variam entre 4 mil e 10 mil pessoas, os 14 pavilhões da Oktoberfest são erguidos em uma espécie de parque chamado Thereisienwiese (tratado pelos bávaros como Wiesn), situado a duas paradas de metrô da estação central de Munique. A área concentra um enorme descampado onde, tradicionalmente, são realizados shows e outros eventos que envolvem grande concentração popular na capital bávara.

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O Thereisienwiese, onde rola a Oktoberfest em Munique

Embora grandiosos, a estrutura dos pavilhões e tudo o que os cerca são levantados (e desfeitos ao fim da festa) em menos de uma semana. E olha que as tendas são bem arrumadas, com restaurantes, banheiros e lojinhas de suvenires.

Os pavilhões se prolongam por uma grande avenida montada no Thereisienwiese. Próximo a eles, há atrações dignas dos maiores parques temáticos do mundo, como montanha-russa, carrossel, carrinho de bate-bate, splash, chapéu mexicano e uma portentosa roda-gigante, um dos símbolos da Oktoberfest. Completam o cenário centros de exposições artísticas, pequenos teatros, lojas de presentes e barracas que vendem refrigerantes, sucos, doces e comidas típicas, como sanduíches de peixe ou de salsichas (a branca, chamada bratwürst, é uma das que fazem mais sucesso), muitas vezes acompanhados de chucrute e mostarda. Extremamente familiar, o ambiente atrai muitas crianças.

É dentro dos pavilhões, no entanto, que a festa realmente atinge o ápice. Mesmo porque apenas neles é possível consumir cerveja. A única exceção são os biergartens (jardins de cerveja), com mesas ao ar livre, próximos à porta principal da maioria das tendas.

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A Oktoberfest rola em meio a um parque de diversões, o que agrada quem viaja em família

Não é preciso adquirir ingresso para entrar nos pavilhões, bem como no Thereisienwiese. Na Oktoberfest alemã, paga-se apenas o que se consome. Duro é achar vaga nas tendas. Aos sábados, quando a festa fica abarrotada de gente, as portas se fecham para evitar superlotação e filas de até três horas se formam nos pavilhões mais disputados.

Uma vez nas tendas, é preciso sentar para beber ou comer. E isso, na Bavária, significa dividir espaço com desconhecidos. Dentro dos pavilhões, mesas e bancos de madeira enormes, para 10, 20 ou mais pessoas, se descortinam formando grandes alamedas. Quem chega vai pegando um lugar, independentemente de quem esteja do lado. E antes que alguém torça o nariz diante da situação, é importante saber que essa é a grande graça da Oktoberfest de Munique.

Ein prosit
Os alemães são extremamente receptivos, não param quietos e fazem amizade fácil, ao contrário da imagem caricata e incorreta que se construiu sobre esse povo no mundo. No meio da festa, não demora a que todos os participantes, nativos e estrangeiros, homens e mulheres, conhecidos ou que jamais tenham se visto, fiquem em pé sobre os bancos e se abracem, feito bons bêbados, cantando, dançando, brindando e paquerando por horas a fio. Mesmo quem não gosta de cerveja não resiste e entra no clima, tamanha a alegria que toma conta do ambiente.

Quem dá ritmo à festa são bandas tradicionais bávaras. Formadas invariavelmente por senhores bonachões, elas tocam, sem parar, seleções de músicas clássicas que levam os alemães à loucura. Muitas são dedicadas à cerveja, outras são cantigas infantis e há até canções de outras regiões, como Estados Unidos, Inglaterra e Caribe. Com os braços levantados, a galera emenda coreografias e pula sem parar.

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Pavilhões da Oktoberfest ficam lotados aos fins de semana e são animados por bandas típicas

As bandas, compostas por aproximadamente 20 integrantes, ficam em um espaço reservado, mais alto, geralmente no meio do pavilhão, de onde comandam a fanfarra com bastante barulho e podem ser observadas por todos. A cada meia ou uma hora, vem delas o refrão musical símbolo da Oktoberfest: Ein prosit, ein prosit der gemütlichkeit (um brinde, um brinde ao ambiente acolhedor), diante do qual todo mundo ergue os copos, movimenta-os para os lados e brinda efusivamente, sempre olhando nos olhos dos bons companheiros, como manda a tradição alemã.

Sorte que os copos, com capacidade para um litro de cerveja, têm vidros grossos, porque os mais entusiasmados brindam sem dó. E no meio dessa farra toda, chamam a atenção as imponentes garçonetes que levam as enormes canecas cheias para as mesas. Algumas moças (às vezes senhoras já na casa dos 70 anos) carregam até 12 de uma vez, envolvendo-as entre os braços com uma habilidade impressionante. À frente delas, truculentos seguranças apitam e, sem nenhuma delicadeza, tiram do caminho os mais distraídos (ou os que já perderam a noção).

Além de cerveja, as garçonetes servem os suculentos pratos típicos oferecidos nos pavilhões. Os mais desejados são o joelho de porco e os pretzels, tradicionais pães alemãs com formato de… pretzel (tipo um 8). Assim que a comida ou a bebida chega à mesa, é preciso efetuar o pagamento na hora, em euros.

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Pratos típicos a base de carne de frango e porco são servidos na festa

Há também vendedoras que passeiam pelo salão oferecendo flores, suvenires, chapéus, broches e chocolates. Muitos desses últimos são confeccionados com a frase-tema da festa, que varia todos os anos, e têm formato de coração. Afinal, no meio daquela farra toda regada a álcool, na qual são consumidos entre 6 e 7 milhões de litros de cerveja todos os anos, é preciso lembrar que a Oktoberfest, acima de tudo, celebra uma união amorosa.

Trajes de época
Há ainda outro aspecto que diferencia a Oktoberfest alemã de todas as outras festas do mundo. No período em que o evento é realizado, nove entre cada dez habitantes da Bavária tiram do armário roupas de época semelhantes (ou, em alguns casos, as mesmas) às usadas por seus ancestrais em séculos passados, sobretudo nas regiões campestres.
Os trajes antigos, chamados de Trachten – é aí que está a peculiaridade: não se trata de fantasias, mas sim de costumes típicos –, voltaram à moda no final da década de 1990. Hoje, deixar de usá-los durante o período em que a festa se desenrola é algo extremamente démodé, coisa de gente estranha ou de estrangeiro.

De forma geral, os homens vestem sapatos ou botas pretas, meias compridas, bermudas, camisas quadriculadas ou brancas e suspensórios ou coletes. As mulheres, por sua vez, se emperiquitam com sapatos fechados baixos e vestidos longos e coloridos, com cintura apertada e generosos decotes que, invariavelmente, salientam os seios. Há toda uma simbologia nos detalhes das roupas: caneleira é para homem solteiro, colete é para homem casado, fita ao lado é para mulher solteira, fita atrás é para mulher casada, fita à frente é para viúvos e por aí vai.

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A maioria dos alemães adere a roupas típicas para curtir a Oktoberfest de Munique

O mais curioso é que não é só para ir ao Thereisienwiese que os alemães se trajam dessa forma: nas últimas semanas de setembro e nos primeiros dias de outubro, o povo trabalha, limpa a casa, vai a bancos, passeia, enfim, segue a vida normal, porém com roupas típicas. Isso ocorre não só em Munique, mas em toda a Bavária.

Quem tem a oportunidade de andar de trem pela região durante a época da Oktoberfest se depara com um mundo de pessoas especialmente vestidas para o evento. A cada estação, tem-se a sensação de, de repente, ter voltado no tempo até meados do século 18.

De tão respeitados, os costumes antigos se transformaram em artigo de luxo na Alemanha. Quanto mais velho e trabalhado o traje, mais valioso ele é. Nas ruas que concentram as lojas mais sofisticadas de Munique, próximas à Marienplatz, praça onde fica a lindíssima prefeitura da cidade, um vestido longo ou um conjunto camisa-suspensório-bermuda no estilo Trachten chega a custar € 1 mil. E os comerciantes vendem à beça.

Fora da Alemanha
Toda essa identificação que os alemãs têm com a festa mais popular do país fez com que a Oktoberfest fosse levada por seus imigrantes para outras partes do mundo. Hoje, Brasil, Argentina, Estados Unidos, Itália, Hong Kong, Vietnã, entre outros, organizam e prestigiam o evento.

Entre todos esses lugares, a edição brasileira realizada anualmente na cidade de Blumenau, em Santa Catarina (há outros eventos do gênero em diversas cidades da região Sul), gaba-se de celebrar a maior Oktoberfest do mundo fora da Alemanha. Curiosamente, o evento surgiu apoiado em uma fatalidade.

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Desfile da Oktoberfest de Blumenau, a segunda maior do mundo

Em 1984, a região do Vale do Itajaí ficou embaixo d’água com as enchentes que assolaram Santa Catarina. Em um cenário trágico de perdas irreparáveis, a ideia de realizar em Blumenau uma edição da festa de Munique foi fundamental para resgatar a autoestima da população e ajudar no reaquecimento da economia. Em poucos anos, tornou-se o maior encontro de cervejeiros do País e uma das festas mais conhecidas entre os brasileiros, amantes ou não da loira gelada.

Além da cerveja, que gera animadas competições para ver quem bebe mais rápido e é servida em quantidades industriais nos pavilhões patrocinados por fábricas famosas e artesanais, os cerca de 700 mil visitantes que vão a Blumenau todos os anos em outubro (graças ao clima tropical, o nome Oktoberfest se faz por valer no Brasil) se deparam, tal como ocorre em Munique, com outros elementos da cultura alemã. Entre eles, destacam-se desfiles de grupos nacionais e internacionais, competições de tiro ao alvo, apresentações musicais, paradas de carros alegóricos e gastronomia típica da Bavária.

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De quebra, os imigrantes mais ortodoxos também arriscam ir à festa verde e amarela com trajes bávaros de época. Com todos esses elementos reunidos, a maior Oktoberfest brasileira, realizada em um grande complexo chamado Parque Vila Germânica, consegue refletir com maestria a característica mais marcante do evento original de Munique: a capacidade de reunir uma multidão de pessoas em meio a um clima de extrema alegria no qual, ao menos por alguns dias, todo mundo é o seu melhor amigo. Ein prosit!

Obs: texto originalmente publicado no livro As Grandes Festas do Mundo, da Editora Europa.