Crédito: Paulo Basso Jr.

Atacama: como conhecer com conforto o deserto chileno

25 de fevereiro de 2018

Por Paulo Basso Jr.

Não há lugar em que os extremos se atraem tanto quanto o deserto do Atacama, no norte do Chile, onde a natureza se revela de maneira tão impactante que faz as obras dos artistas mais talentosos da história parecem meros rascunhos do que realmente é belo aos olhos humanos.

O deserto do Atacama é o lugar mais árido do mundo e também o que tem o céu mais limpo, onde a lua, estrelas e planetas se exibem como em nenhum outro ponto da Terra. Uma região desértica na qual, a qualquer momento, pode-se avistar um punhado de neve no topo de montanhas e vulcões.

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Vale a pena se informar bem antes de seguir rumo ao Deserto do Atacama

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Deserto do Atacama: onde fica

A base para visitar o deserto do Atacama é o povoado de San Pedro de Atacama, que tem cara de Velho Oeste norte-americano e é cercado por reservas administradas por comunidades indígenas.

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A beleza dramática do deserto do Atacama

Ali ficam os hotéis e operadoras que oferece passeios rumo a vulcões de seis metros de altitude, dunas gigantes, cânions cortados por fontes de águas termais, lagoas de águas coloridas e salares.

Tudo isso emoldurado pelas montanhas que se descortinam de forma dramática pela região, que tem o tamanho do Paraná e se desenvolveu ao longo dos anos como uma extensão da Cordilheira dos Andes.

Deserto do Atacama: como chegar

Admirar essa exuberância natural exige certo esforço de deslocamento por parte do viajante. Para chegar ao Atacama é preciso desembarcar no pequeno, porém aconchegante aeroporto de Calama, a cerca de 1.600 km ao norte de Santiago, na fronteira com a Bolívia.

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Aeroporto de Calama, a cerca de 1.600 km ao norte de Santiago

Dali é possível seguir de van rumo a San Pedro de Atacama, a cidade-base do deserto, num trajeto de 80 km. Alguns hotéis oferecem o serviço, mas também dá para fazer reservas junto às operadoras locais no próprio aeroporto.

Deserto do Atacama: hotel

O traslado funciona como boas-vindas ao hóspede de diversos hotéis, entre os quais o mais luxuoso é o Tierra Atacama, um dos mais premiados do Chile.

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Acomodações do Tierra Atacama

Mais do que um refúgio confortável para descansar, o empreendimento, cujo design desperta a atenção por se mesclar sutilmente à paisagem, conta com uma equipe especializada para organizar todos os passeios pela região.

Com conceito de lodge ecológico, o hotel conta com spa com piscina aquecida, sauna, massagens e tratamentos relaxantes. As diárias, porém, são salgadas, giram em torno de US$ 700, mas incluem todas as refeições e open bar, com os bons vinhos chilenos, uísque 12 anos, cervejas e qualquer bebida não alcoólica à vontade.

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Piscina do Tierra Atacama: puro luxo

Dois tours de meio dia ou um de dia inteiro fazem parte do pacote do Tierra. Os quartos são independentes e aconchegantes, com uma cama divina e bom acesso à internet. O chuveiro oferece uma ducha larga e forte ao ar livre e outra na parte interna.

  • Uma opção de hospedagem bacana, um pouco mais barata, é o Cumbres San Pedro de Atacama, que tem boas instalações e um restaurante que passeia pelos sabores do Chile. O local também organiza passeios para Vale da Lua, Gêiseres del Tatio, Salar de Tara, Ter­mas de Puritana e Lagoa Chaxa.
  • Para gastar menos, a dica é o Don Raul. É bem simples, com decoração indí­gena, mas oferece comodidades como o aluguel de bicicletas.

Deserto do Atacama: melhor época

A melhor época para visitar o deserto do Atacama é de março a maio ou de setembro a novembro, quando as temperaturas durante o dia são mais amenas e não faz tanto frio à noite.

Entre junho e agosto, faz muito frio quando o sol se manda, o que pode atrapalhar um pouco os passeios que partem no início da manhã.

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O Deserto do Atacama tem o céu mais limpo do mundo

De dezembro a fevereiro, principalmente no final do período, pode chover, o que estraga bastante o passeio. Mas a densidade pluviométrica do Atacama é mínima: tem anos que chove menos que um dia em uma grande cidade brasileira, como São Paulo.

Deserto do Atacama: dicas

No Atacama, os dias se repetem mais ou menos da mesma forma: todo mundo acorda bem cedo, muitas vezes antes do sol nascer,quando partem os primeiros passeios.

Nessa hora, a temperatura é gelada e pode atingir graus negativos. Por isso, a dica se vestir em camadas, com gorro, luvas, calças e jaquetas que, ao longo do dia, podem ser tirados facilmente para dar lugar a bermuda ou shorts e camiseta.

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É importante se vestir em camadas

É bom levar calçados de trekking, pois se anda bastante na região. Além disso, nunca saia do hotel sem protetores solar e labial, já que o clima é muito seco a incidência de raios ultravioleta é altíssima por causa da baixa umidade do ar.

Lembre-se ainda de tomar muita água, litros e litros, para evitar a desidratação.

Deserto do Atacama: roteiro

Assim que chegar ao  Atacama, vale a pena definir o roteiro que será seguido durante a estada. Isso pode ser feito com a equipe do hotel ou nas agências especializadas em San Pedro de Atacama. Cinco dias é um bom período para conhecer o melhor do Atacama.

É importante que os itinerários sejam flexíveis. Os guias geralmente auxiliam nas decisões tomadas diante de mapas, sugerindo tours de acordo com as aptidões e desejos de cada um, bem como o período que permanecerá na região.

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Vale a pena sair do hotel com um roteiro definido

Isso porque, para o corpo se acostumar com o ar rarefeito e o clima, é necessário dormir ao menos duas noites em San Pedro de Atacama antes de se dirigir para as atrações turísticas situadas em pontos de maior altitude – em geral, as mais exóticas e desejadas.

O cardápio de possibilidades vai de lagoas azuis e rolês de bike por vales a gêiseres que cospem água fervente do solo e regiões onde o chão é forrado por uma placa de 1 km de espessura de puro sal petrificado. São tantas opções que fica impossível conhecer tudo de uma vez.

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Laguna no Deserto do Atacama

Nem que a viagem durasse o ano inteiro, fazendo um passeio diferente a cada dia, sem repetir nenhum deles, daria para explorar todo o deserto chileno. Mas há algumas figurinhas carimbadas que não podem ficar de fora da programação.

Vale da Lua

Nos primeiros dias da viagem, com o corpo ainda em fase de ambientação, os passeios costumam ser realizados nos arredores de San Pedro de Atacama.

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Vale da Lua, no Atacama

É lá que fica o Vale da Lua, lugar escolhido pela Agência Espacial Norte-Americana (Nasa) para testar alguns robôs que foram enviados em foguetes para Marte, já que o solo pedregoso e as formações rochosas da região lembram muito os do planeta vermelho e também os do satélite natural da Terra.

Pedra do Coyote

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Pedra do Coyote, no Vale da Lua

O tour, geralmente realizado a bordo de vans com acompanhamento de guia, inclui algumas paradas estratégicas. Uma das melhores é a Pedra do Coyote, localizada em um platô do qual se tem uma vista belíssima da cordilheira de sal que toma conta da região.

É na imensidão daquele cenário que você começa a se sentir uma formiguinha no deserto.

Ainda mais se você estiver ali durante a manhã, sem ninguém por perto, já que o lugar costuma ser invadido no fim da tarde por quem deseja assistir ao pôr do sol. É verdade que a imagem é linda, mas o clima nas primeiras horas do dia é muito mais intimista.

Anfiteatro e as Três Marias

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Anfiteatro, no Vale da Lua

Assim, dá para fazer fotos com mais calma antes de seguir viagem para algumas formações rochosas interessantes, como o Anfiteatro, uma enorme e sinuosa pedra horizontal, e as três torres que formam as chamadas Três Marias.

Quebrada de Cari

Dunas que parecem não ter fim e de onde se avistam belas paisagens também fazem parte da experiência, mas impressionante mesmo é passar pela Quebrada de Cari.

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Caminhada ecológica no deserto do Atacama

Está aí, inclusive, uma das vantagens de ficar no Tierra Atacama. Com acesso limitado durante a maior parte do ano, o local costuma ser aberto apenas para os privilegiados do hotel.

Tudo começa com uma caminhada delicada por rios de sal (espaços demarcados há muitos anos pela água do mar, que evaporou e deixou, como rastro, uma espécie de trilha branca), durante a qual se deve pisar na pegada da pessoa que vai à frente para diminuir o impacto ambiental.

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Quebrada de Cari, no Deserto do Atacama

Após alguns minutos de trekking leve se alcança a entrada de uma rocha que funciona como uma concha acústica. Ali, o guia senta e pede silêncio para que se possa ouvir alguns estalos fantasmagóricos, do tipo “crec-crec”, provenientes do interior das paredes rochosas de sal.

O fenômeno é provocado pela dilatação das rochas (com sal e gesso na sua composição) ao longo do dia.

San Pedro de Atacama

Com clima hippie e cara de filme de bang bang, o povoado de San Pedro de Atacama é uma espécie de oásis no meio do deserto que acaba surpreendendo quem o visita entre um passeio e outro pela região.

Na Calle Caracoles, a rua principal, há alguns bares, restaurantes e lojas interessantes, todos com aparência extremamente rústica.

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Vila de San Pedro de Atacama

Outros pontos de visitação são a antiga igreja da vila, construída em 1774, que tem paredes de barro e teto feito com cactos típicos da região, e o Museu Padre Gustavo Le Paige, que conta a história de 10 mil anos do povo do Atacama.

O museu exibe achados arqueológicos como peças em ouro, tecido e cerâmicas. Bem ao lado dele fica uma feira de artesanato, ideal para comprar suvenires.

Termas de Puritama

Um dos passeios mais gostosos do Atacama é o que segue para as Termas de Puritama, uma área tomada por cânions serpenteados por pequenas lagoas e cachoeiras de águas termais, tão morninhas que nem dá vontade de sair de dentro.

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Termas de Puritama, no Atacama

Ao todo, são oito piscinas a permanentes 33,5ºC, perfeitas para boiar e deixar o tempo passar, curtindo o frescor do ar em meio à queda brusca da temperatura no fim da tarde, bastante comum no deserto.

O bom é que, enquanto o sol não se manda, ele brilha intensamente, já que ali chove menos do que no Saara. Ver nuvens é algo tão raro que a maioria dos nativos jamais ouviu o barulho de um trovão na região.

Guatin

Quem vai às Termas de Puritama pode solicitar ao guia, na volta para o hotel, para dar uma passada nesta região e conhecer um pouco mais da flora do Atacama.

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Cactos em Guatin, no Atacama

Destaque para os cactos imensos, que chegam a ter mais de 3 metros de altura.

Vale dos Mortos

Trata-se do tour noturno pelo Vale dos Mortos, local assim batizado após a descoberta de corpos enterrados pelas antigas civilizações que habitavam o Atacama.

Deste trecho do deserto tem-se uma vista privilegiada das montanhas, consideradas divinas pelos antigos atacamenhos. Daí o caráter sagrado da região.

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Apesar da história mórbida, o passeio é instigante. A trilha segue em meio a formações rochosas que, sob a luz do luar, exibem-se cinzas (embora sejam avermelhadas).

No final da caminhada há uma grande duna, cujo topo permite uma linda vista do vale. É nesse ponto que algumas agências e hotéis permitem que todos sentem, com uma taça de vinho na mão, para sentir o prazer de estar diante do melhor ponto de observação astronômica do mundo.

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Noite no Vale dos Mortos, no Atacama

Com uma caneta infravermelho, alguns guias ensaiam identificar algumas constelações e até mesmo planetas, como Júpiter. Mas perfeito mesmo é o instante em que todos ficam em silêncio apenas apreciando o show da natureza madrugada adentro.

Gêiseres del Tatio

Já aclimatado à região, chega o momento de visitar os Gêiseres del Tatio, um dos passeios mais procurados do Atacama. Para isso, no entanto, é preciso pular da cama bem cedo, por volta das 4h30 da manhã.

A van roda por cerca de duas horas até o trecho, a 4.300 metros de altitude, onde existe um campo com cerca de 80 gêiseres expulsando água fervente de origem vulcânica.

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Gêiseres del Tatio, no Atacama

O que se vê ao chegar são apenas cortinas de fumaça e buracos no chão. Faz um frio danado, mas ninguém reclama. Todos os olhos parecem hipnotizados e os ouvidos atentos ao som borbulhante da água aquecida nas entranhas da terra.

O encontro da água quente com o ar gelado do amanhecer, que pode chegar a -8ºC, forma colunas de vapor iluminadas pelos primeiros raios de sol da manhã.

Salar do Atacama

É difícil deixar os mimos do hotel para trás, mas reserve uma tarde para visitar o Salar do Atacama, planície de sal que se estende por 8 mil km2, cerca de duas vezes a área da cidade de São Paulo.

O trajeto que segue por 85 km rumo ao sul de San Pedro ganha um sabor extra com os damascos, castanhas, amêndoas e avelãs servidos na van, bem como chocolates.

Laguna Chaxa

A descida se dá próxima à Laguna Chaxa, habitada por simpáticos flamingos. Nas madrugadas mais geladas de inverno, as aves, que dormem com apenas um pé dentro da água, ficam presas no gelo que se forma na superfície da lagoa e precisam esperar que o sol o derreta para se movimentarem.

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Flamingos em laguna no Atacama

Com a ajuda de um telescópio, alguns guias mostram as diferenças entre as diversas espécies que vivem na região enquanto conta essa e outras histórias. Há algumas trilhas em meio ao mar de sal para quem deseja se aproximar dos animais, sempre respeitando o espaço deles.

O céu mais lindo do mundo

Quando o fim da tarde dá as caras, algumas agências e hotéis oferecem uma refeição aos viajantes. Muitas vezes são servidos wraps de salmão e frutas deliciosas.

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Pôr do sol no Salar do Atacama

Porém, pouca gente se aventura a comer, já que os olhos – e lentes fotográficas – estão apontados para o sol se pondo de maneira sublime, tingindo o céu, a cada minuto, de uma cor diferente: rosa, laranja, vermelho, amarelo, roxo…

Ali, até o pior fotógrafo do mundo consegue registrar aquela imagem que, por anos, enfeitará um dos porta-retratos de casa. Mas o fato é que nem é preciso se preocupar muito com isso. Afinal, quem vê aquele cenário ao vivo jamais tira o Atacama da cabeça.

Laguna Cejar

Próximo a San Pedro de Atacama está a Laguna Cejar, com água em tom verde de mar do Caribe e uma concentração de sal tão absurda que é impossível afundar, mesmo se ficar com braços e pernas cruzadas.

O corpo boia sem que você precise mover um músculo sequer, tal como acontece no Mar Morto.

Altiplano Andino

Cercadas por vulcões, as lagoas Miscanti e Miñiques exibem águas extremamente azuis e são personagens principais no passeio ao Altiplano Andino.

Divulgação
Laguna no Altiplano do Atacama

Ambas ficam em uma planície 4 mil metros acima do nível do mar. A chegada pelo alto de um morro, vendo as lagoas de cima, é um dos auges do tour.

Salar de Tara

Nesta região a 140 km de San Pedro de Atacama, paredões rochosos formam um cânion que desemboca em um lago.

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Salar de Tara, no Atacama

No caminho, estão os chamados Moais de Tara, pedras imensas esculpidas pela ação do vento (de até 30 metros de altura), que surgem no meio do nada.

Reportagem adaptada de original publicada na revista Viaje Mais Luxo, parceira do Rota de Férias.